Homenagem aos impulsionadores do Teatro Popular na Fajã de Baixo
DIA MUNDIAL DO TEATRO
27 março 2017
Minhas Senhoras e meus Senhores,
É uma honra para mim , no dia Mundial do Teatro estar presente e dar testemunho de uma da páginas mais interessantes e mais nobres do ponto de vista cultural da nossa Freguesia, como foi o Teatro Popular a Fajã de Baixo.
Foi, portanto feliz a ideia dos fajaneneses juntarem-se neste dia para fazer uma Homenagem a todos os intervenientes do Teatro desta Freguesia , muitos deles falecidos, silenciados portanto pela lei da morte física, mas que continuam bem vivos na memória dos seus familiares, e que merecem um carinho especial da memória colectiva de todos nós, pelo trabalho comunicativo, tocante, excepcional em prol da nossa comunidade e de quantos corriam para se deliciarem com o espectáculo, que eles, amadores, tão alegre e desinteressadamente davam.
Pessoas cheias de talento, com recursos muito escassos fizeram obras primas, por isso merecem todo a nossa homenagem e que os sobreviventes daqueles tempos (cada vez menos) se juntem para registar, gravar a memória de todos eles na história desta Freguesia.
E que os novos ao ouvirem falar deste Teatro Popular se entusiasmem por actividades culturais semelhantes ou parecidas, que marcarão também as suas gerações.
Como pediram para falar de memórias do nosso Teatro. A forma que encontrei r foi a de avivar a minha memória e falar do meu tempo de criança e jovem, quando assistia aos seus espetáculos, dando testemunho do que via e ouvia naquela altura. Nada que eu tivesse encontrado escrito, mas simples recordação. Espero tenham paciência para me ouvir... Dos artistas que lidei mais de perto farei uma pequena nota da minha memória deles.
Tinha 6/7 anos quando vi pela primeira vez um filme, (o fado ... no armazém que existia em frente ao Café Redondo) e nessa altura reparei que no palco havia dois panos que se abriam para a projeção do filme e num pano havia o desenho de chuva e no outro pano o desenho de um sol. Meus irmãos disseram-me que era de uma peça chamada “Sol e Chuva”, que eu por ser muito pequeno não tinha chegado a ver. Mas que pelos cartazes que entretanto vi realizou-se em 1952.
Na escola, estava na segunda classe, com 8 anos, fomos cantar para o armazém enorme da Corretora (anexo à casa onde nasceu Natália Correia, sabem a onde? Exactamente aqui!. Ainda me lembro do nome da canção: “NÓS SOMOS ESTUDANTES do BA,BE,BI,BO,BU”. Recordo-me que quando estávamos todos no palco de bata branca, diante de toda aquela gente, pois o espetáculo era num armazém enorme ... de sentir as pernas a tremer.... (estávamos na década de 50).
Também de bata branca estive num primeiro de dezembro (dia da Restauração) no Coliseu a ver “A Lanterna Mágica”. Ainda me lembro de ficar muito triste devido a uma canção que começava : “Meu avozinho”...(cantava a Elisabete, neta do sr Norberto da Corretora), “Meu lindo amor” (respondia a cantar o Actor vestido de velhinho, com a voz trémula) depois os dois cantavam : “é tal igual, é tal igual a nossa dor”....
O Coliseu, naquele dia, encheu-se de crianças vindas de todo o Concelho, o palco encheu-se de luz e de cenários maravilhosos. Numa altura em que não havia televisão e o cinema era a preto e branco, imaginem o deslumbramento que nos provocava. Ainda me lembro de ver no Coliseu , jovens fardados com chapéu redondo a vender guloseimas, que estavam em tabuleiros presos ao pescoço por um cordão.
Já aqui na Fajã, lembro-me muito bem de, em criança , ir aos ensaios gerais de um novo espetáculo, talvez graças ao facto de ter como amigo e vizinho o Aires Gabriel , filho do Sr Jaime Tavares Silva de boa memória...
E da irmã dele a Gina, que desde muito pequena já ia para o palco à vontade, fantástico.
E de toda a azáfama que era um ensaio geral.....
Ainda quando andava na Escola Primária e por influência dos espetáculos que assistíamos, juntávamo-nos no anexo à sacristia, (onde hoje é o cartório) mas na altura servia de garagem e de arrumação dos mastros e da casa do bazar, etc. e , por nossa iniciativa, fazíamos espetáculos para outras crianças verem, onde se imitava aquilo que os adultos faziam no palco. Não me recordo quem eram os intervenientes mas sei que o Osvaldo Medeiros era um deles.
Por outro lado, lembro-me, quando era criança, de ver aos domingos à tarde alguns figurantes do espetáculo irem de passeio até à casa do Sr Jaime Tavares Silva. Recordo-me de usarem roupas domingueiras , lembrando talvez o comportamento de “la belle epoque”, onde não faltavam as calças brancas no homens, os vestidos e penteados das senhoras, tudo envolvido num perfume que não existia para os lados da minha casa. Estávamos na década de 50.
O sr Jaime Tavares Silva era um apresentador de classe… não conheci outro igual, tinha charme. Posso dizer que sabia divertir e sabia divertir-se…. Misturava-se com os jovens… recordo-me dos assaltos de carnaval na casa dele, ele é que era o animador por excelência. Conheci-o muito, muito bem, por ser vizinho durante toda a minha infância e juventude.
Recordo-me da forma alegre, divertida, mas com classe como ele dirigia a parte da revista.
Memórias que nunca vou esquecer.
Era o impacto e a influência que os espectáculos tinha na rua, nas lojas, na casa das pessoas. No dia a seguir ao espectáculo toda a gente comentava na rua uns com os outros as piadas e a graça do espectáculo, entrava mesmo na gíria certas frases, entre o pessoal do campo e das estufas, meio onde eu me movia naquela altura. A expressão: “vira ao disco e toca o mesmo”, passou a ser muito usada para os que falavam, falavam… vem de uma peça que se chamava “Vira ao disco”.
Mas quem era mesmo frequentemente imitado era o nosso saudoso Hermínio Arruda, entre outros lembro-me o João Carlos Bodeta ( mais tarde foi sacristão e emigrou para os Estados Unidos), que era da minha idade, a imitar o Hermínio Arruda, em alto e bom som, pelas ruas da Fajã. Todos queriam imitar, mas nenhum chegava à voz limpa , suave e única do Hermínio. Nunca vou esquecer a voz limpa, clara do jovem chamado Hermínio Arruda.
Nas lojas do sr. António Vaz de Medeiros, do sr Gil Lima Ferreira ou mesmo do sr. Luis Brás não se falava noutra coisa, em tempo de espectáculo.
O Tio Laureano dizia: “Pou! o bilhete devia ser mais barato! “ (gritava, porque era rijo do ouvido)
A Arrepiada, das poucas senhoras que iam à Loja, replicava: “Pelo preço do bilhete eu compro três dúzias de charros!”
Mas todos acabavam por arranjar dinheiro. O Sr. António Vaz de Medeiros da venda, estava a ouvir a conversa e acabava por dar um pequeno fiado naquele mês e iam todos ao espetáculo. Bom homem era aquele, o Sr. António. Quando ele morreu foi o maior funeral que eu tivesse visto aqui na Fajã, com banda de música (ele era o Presidente da Banda) , com discurso fúnebre no cemitério, muita gente da cidade esteve presente. Lembro-me de ter visto tudo da torre da Igreja, a rua Direita ficou completamente cheia de gente.
Estudei no seminário de Angra até aos 19 anos e naquela casa participávamos em muitas peças de teatro, desde as clássicas de Gil Vicente: “ A barca do inferno”, “a Farsa dos almocreves”. Gil Vicente tinha uma linguagem brejeira e recordo-me que às vezes iam lá umas freirinhas ver as nossa representações e ficavam embaraçadas com as expressões usadas pelo Gil Vicente, que era desbocado. Recordo aqui grande peças de Teatro, que não de revista, escritas e ensaiadas por Padre Coelho de Sousa, poeta, escritor e dramaturgo e que não tenho dúvida inspiraram e motivaram o aparecimento de bom teatro em Angra de que é exemplo O Alpendre. ( Um aparte: O Padre Coelho de Sousa, de que estou a falar, foi quem escreveu a letra do hino de N.S. dos Anjos)
Mas o Teatro Popular que se fazia aqui na Fajã era diferente, o teatro popular era muito vivo, acutilante, divertido e falava do dia a dia das pessoas, era de forte entretenimento.
Estudei em Angra, no Seminário(estávamos no princípio da década de 60) e durante as férias às vezes havia teatro/revista que eu cheguei a ver, apesar de na altura não ser muito recomendado para o meu estado de seminarista. O Padre Ribeiro não gostava muito. Recordo-me uma célebre revista em que se cantava uma canção “Moliendo café”, cantada e dançada por uma menina da Alameda de Belém (chamava-se Luísa Câmara) e que muito encantou o grupo de seminaristas da Fajã daquele tempo. Estávamos em 1964, com a peça que se chamava “Tento na Bola”.
Quando saí do seminário fui convidado para servir de “ponto”, foi o que fiz , mas por pouco tempo, porque depois fui para a tropa. A peça era: “Dar corda para se enforcar” e na parte da revista cantava o Hermínio Arruda a canção " Quem foi que disse?" (música do Sr Neves – que não sendo da Fajã vinha tocar nas festas da igreja e casamentos, ele tocou violino no meu casamento) e letra de sr.José Barbosa).
Lembro-me, quando servi de ponto, o quanto penava para ler o texto para o sr Jovelino Pimentel , ele todas as vezes criava texto e eu tinha que andar atrás, à procura de saber onde ele estava. Era muito criativo.
Lembro-me como eram feitos os ensaios, à noite, depois dos nossos trabalhos, quando toda a gente se deitava por volta das 9.30 da noite, aquela gente ia pela noite dentro com entusiasmo, onde não faltavam fricções entre eles sobre a melhor forma de atuar, havendo sempre a palavra final de José Barbosa.
O Teatro de revista levava o público a rir sem limites, não só sobre personalidades, mas também sobre situações.
Por exemplo: a expressão“ ele só toma banho geral no sábado do Santo Cristo”, ou aquela expressão “ amanhã vou plantar couvinha, que vai chegar um barco de touristas...” (porque estava sempre a chover quando os turistas chegavam de barco) são expressões que duraram anos entre nós.
Curiosamente que a censura (estávamos na ditadura) estava atenta, mas a revista dava a volta através de pequenos sinais, estabelecendo uma relação com o público de cumplicidade muito forte, que resistia até à censura.
Recordo que o Sr. Jovelino Pimentel a certa altura dizia que não se podia herdar nada. "Quem herda, herda para a fazenda, herda para o papel selado, herda pra isto, herda pra quilo herda para... , herda...herda...(e depois só abria a boca) e toda a gente sabia o que ele estava a dizer... e ria dasalmadamente.... com a palavra que ele queria dizer (e não dizia) e com os gestos que ele fazia...
E podia levar aqui mais tempo a recordar coisas do estilo “se bem me lembro”, muito ao gosto dos que já têm a minha idade. Mas vamos passar adiante...
Mas não resisto traçar um retrato do que era a Fajã naquele tempo .
Eramos poucas famílias, toda a gente conhecia toda a gente…
As ruas principais eram… jogávamos à bola no Largo da Igreja, ou entre a Igreja e a Escola do Calço da Furna. O gado vinha beber água ao Largo da Igreja, tinhamos que ter cuidado na hora da missa, para não sujar os sapatos que se calçavam ao domingo. Não havia muitas lavouras, 2 ou 3. A maior parte dos residentes trabalhava nas estufas ou no campo. Poucos trabalhavam na cidade. Foi a minha geração que começou a ir trabalhar para a cidade. Ainda lembro-me de começar a ver as camionetas cheias de manhã a levar o pessoal para a cidade.
Só as casas abastadas tinham rádio, só começa a compra de rádios a meio das década de 60 , quando aparecem as vendas a prestações.
É neste o cenário que aqueles homens com poucos meios animam as noites de Teatro, e agora imaginam o impacto que tinham na nossa gente.
Muitaa gente vinha de outras freguesias ver o Teatro, da cidade havia carreiras extraordinárias. As casas de espectáculo enchiam.
Para terminar vou fazer um flash sobre a minha impressão de alguns grandes vultos do nosso Teatro.
Já dei testemunho do sr Jaime Tavares Silva, um homem que divertia e divertia-se . Um gentilman e um show man como nunca vi. Soube viver e fazer aquilo que gostava de fazer.
Jovelino Pimentel – um artista que sabia fazer rir, não só com palavras mas com mímica. Um aparte que ninguém ainda disse, o sr Jovelino um homem extremamente religioso, de muita fé. Muitas vezes o vi a entrar na nossa Igreja. Julgo que houve um tempo em que ele ia diariamente à Igreja.
A esposa D. Lina Pimentel que vivia intensamente todo o Teatro, que participava em muitos espectáculos.
José Barbosa, tirando os ensaios que tive com ele, nos quais ele era exigente, mas afável, não o conheci muito bem, a não ser pelo que ele escreveu.
Merecedor de todo reconhecimento pelo trabalho desenvolvido.
Hermínio Arruda – uma grande, grande voz. Clara, limpa. Conheci-o ainda ele era muito jovem e naquela altura a voz dele era sublime, nunca mais ouvi coisa parecida. O Hermínio era um bom homem, nunca o ouvi elogiar-se, vangloriar-se. Nem mesmo depois de espectáculos de sucesso.
Alguém dos Estados Unidos disse-me uma vez que eles colocavam o Hermínio no final dos espectáculos com receio de quando ele acabasse de cantar as pessoas iam embora.… (isto mesmo com cantores conhecidos do continente…)
Outro artista, este a minha geração:
Osvaldo Medeiros - foi o que mais conheci por ser da minha geração. O Osvaldo foi divertido no palco, mas onde eu tinha dores de barriga de rir, era em serões com ele. Houve um tempo, casados de fresco, todos os sábados um grupo de casais jogava canasta. O serão acabava sempre com uns comes e bebes e convívio. Era de morte… Isilda lembras-te quando as anedotas começavam a descer… toda a gente dizia o serão está a acabar.
O Osvaldo partiu muito cedo, o Osvaldo criou personagens, a criatividade era muita.
Não vou falar de Duarte Pimentel porque não o vi em palco, mas recordo-me de dizerem a propósito do Jovelino, que ele tinha um irmão que era excepcional artista. A esposa Natália Marcelino, encantou-nos nos trabalhos televisivos que todos vimos. Havia um que era “Pedra Branca” passado na Graciosa que me encantou sobremaneira. Que eu nunca vou esquecer.
Estou quase a terminar …
Antes de o fazer não podia deixar de referir o papel que A Casa do Povo DA Fajã de Baixo ao longo de todos estes anos, dando guarida a todos para que fosse possível muito do que foi feito. Agora que a Casa do Povo comemorou os 80 anos de existência também merece uma palavra de carinho e de agradecimento. Agradecimento que dirijo à actual Direcção.
A Associação Turística, Cultural e Desportiva de Fajã de Baixo, ATURCULDESP, está de parabéns por reavivar a memória colectiva de um fenómeno que a todos fajanenses deve honrar, mas também deve servir de incentivo para que as novas gerações se sintam entusiasmadas em procurar através do Teatro e de outras actividades culturais enriquecer e valorizar a nossa vivência como comunidade .
Gostaria aqui de destacar todos os que trabalharam no Teatro e foram muitos, muitos que de dia para dia vou descobrindo, atores, músicos, coreógrafos, alguns participaram e emigraram e que constituíram esta nobre página da nossa Freguesia.
Os tempos são outros, (e que tempos!), mas para isso é que os novos têm energia, força e criatividade para desfiarem o presente para alcançar um futuro digno e merecedor de homenagem, como foram estes nossos antepassados.
Viva a Fajã de Baixo!